Aculturação
Breno Lacerda
No final do séc. XIX,
floresceu, em meio às elites intelectuais e econômicas do Brasil, o espiritismo
de Allan Kardec. O que era de esperar, tendo em vista que e uma doutrina
filosófica de implicações morais e científicas, escrita em idioma estrangeiro,
oriunda da França, país que à época detinha a hegemonia cultural e ditava as
regras do que era chique.
Segundo Pinheiro (2004), o processo de aculturação do espiritismo,
ao aportar num país de características tão diversas quanto o Brasil, também era
previsível, senão necessário. Além da tradução para o português, era crucial
assimilar os aspectos que compunham a história e a cultura brasileiras, caso
houvesse a intenção de disseminar a nova doutrina. E havia, pelo menos da parte
dos espíritos que coordenam os destinos da nação.
Uma das questões que,
para Pinheiro (2004), em breve viriam à tona
diz respeito à feição ou à roupagem fluídica dos espíritos presentes nas
reuniões mediúnicas. A questão era: para onde iriam os espíritos de negros e
indígenas brasileiros que desencarnavam? Além dos médicos, filósofos, advogados
e demais intelectuais, também morriam os pobres do povo e os pretos,
recém-alforriados pela Lei Áurea de 1888.
Nas páginas de Kardec,
nada sobre pretos-velhos ou caboclos, pois que não havia nem emigração das
colônias africanas para a França. No máximo, o depoimento de um soldado, morto
nos campos de batalha das guerras nacionalistas do continente europeu. Como
proceder, então, com essa gente desencarnada?
Para Pinheiro (2004), assim
como a prática de capoeira outrora foi considerada crime, prevista no Código
Penal, falar em preto, ainda mais velho, era assunto proibido em muitos locais.
Ouvia-se espíritas a debater teorias: ”Se der ’estrimilique’, se errar na
conjugação verbal e fizer menção a arruda e guiné”, que são as ervas da
medicina de que dispunha a população, ”é espírito atrasado”.
Hoje, segundo Pinheiro (2004), mesmo sem gozar do reconhecimento amplo –
que não é seu objetivo -, as mães e os pais velhos dão importante contribuição
nos centros espíritas ”kardecistas” de todo o Brasil. Aceitos ou não, já se
acostumaram com a discriminação. Percebidos ou não pelos médiuns da
casa-grande, são os caboclos que manipulam o bioplasma das ervas, são os
pretos-velhos que preparam o ectoplasma utilizado em reuniões de cura e
tratamento espiritual.
Fonte: Spiritus n.º 62, de junho/julho de 2004 – Periódico editado pela Casa dos Espíritos Editora - Retirado do livro Aruanda – Robson Pinheiro)



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