terça-feira, 5 de novembro de 2013

Aculturação




Breno Lacerda

No final do séc. XIX, floresceu, em meio às elites intelectuais e econômicas do Brasil, o espiritismo de Allan Kardec. O que era de esperar, tendo em vista que e uma doutrina filosófica de implicações morais e científicas, escrita em idioma estrangeiro, oriunda da França, país que à época detinha a hegemonia cultural e ditava as regras do que era chique.
Segundo Pinheiro (2004), o processo de aculturação do espiritismo, ao aportar num país de características tão diversas quanto o Brasil, também era previsível, senão necessário. Além da tradução para o português, era crucial assimilar os aspectos que compunham a história e a cultura brasileiras, caso houvesse a intenção de disseminar a nova doutrina. E havia, pelo menos da parte dos espíritos que coordenam os destinos da nação.
Uma das questões que, para Pinheiro (2004), em breve viriam à tona diz respeito à feição ou à roupagem fluídica dos espíritos presentes nas reuniões mediúnicas. A questão era: para onde iriam os espíritos de negros e indígenas brasileiros que desencarnavam? Além dos médicos, filósofos, advogados e demais intelectuais, também morriam os pobres do povo e os pretos, recém-alforriados pela Lei Áurea de 1888.
Nas páginas de Kardec, nada sobre pretos-velhos ou caboclos, pois que não havia nem emigração das colônias africanas para a França. No máximo, o depoimento de um soldado, morto nos campos de batalha das guerras nacionalistas do continente europeu. Como proceder, então, com essa gente desencarnada?
Para Pinheiro (2004), assim como a prática de capoeira outrora foi considerada crime, prevista no Código Penal, falar em preto, ainda mais velho, era assunto proibido em muitos locais. Ouvia-se espíritas a debater teorias: ”Se der ’estrimilique’, se errar na conjugação verbal e fizer menção a arruda e guiné”, que são as ervas da medicina de que dispunha a população, ”é espírito atrasado”.
Hoje, segundo Pinheiro (2004), mesmo sem gozar do reconhecimento amplo – que não é seu objetivo -, as mães e os pais velhos dão importante contribuição nos centros espíritas ”kardecistas” de todo o Brasil. Aceitos ou não, já se acostumaram com a discriminação. Percebidos ou não pelos médiuns da casa-grande, são os caboclos que manipulam o bioplasma das ervas, são os pretos-velhos que preparam o ectoplasma utilizado em reuniões de cura e tratamento espiritual.

Fonte: Spiritus n.º 62, de junho/julho de 2004 – Periódico editado pela Casa dos Espíritos Editora - Retirado do livro Aruanda – Robson Pinheiro)




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